terça-feira, 2 de junho de 2020

Uma das bibliotecas mais bonitas em todo o mundo


A biblioteca do Palácio Nacional de Mafra é uma das mais bonitas em todo o mundo, tem um conteúdo fabuloso e é também uma das mais ecológicas porque são os morcegos que eliminam os insectos, os pavorosos inimigos dos livros.
São várias as referencias a nível internacional e vão todas no mesmo sentido: a biblioteca do Palácio Nacional de Mafra é das mais bonitas, mais singulares e com uma natural associação entre a riqueza do conteúdo e a sua beleza.
Curiosamente o destaque da beleza é porque não foi acabada. Foram feitos os preparativos para a pintura e colocação de retratos mas isso não sucedeu.
Os tons suaves com um piso em pedra lioz de várias cores e uma ligeira luz que entra por janelas no piso superior central dão uma profunda harmonia ao espaço.
Um tom suave e ameno, propício para a descoberta dos quase 36 mil volumes. Um acervo único em Portugal e raro em todo o mundo. Há exemplares únicos em Portugal e em alguns casos apenas mais dois ou três em todo o mundo.
A colecção de livros vai do século XV ao XIX e funciona como um verdadeiro repositório do saber na Europa nesta época.
D. João V enviou emissários à procura do melhor que era produzido. Até “trouxeram” uma Bula papal, de Bento XIV que em 1754 permitiu à Biblioteca do Palácio ter livros proibidos.
São ainda algumas centenas e têm uma inscrição onde é feita a referência sobre a proibição. A maior parte incide em temas religiosos (Reforma) ou temas esotéricos. O terceiro grupo de obras proibidas é sobre temas sociais onde se questiona o poder absoluto do rei e a organização social que pouco depois foi profundamente alterada com a Revolução Francesa.
A última particularidade: os morcegos. São, como afirmou Teresa Amaral, a bibliotecária responsável, o elo de ligação de uma perfeita harmonia entre o património cultural e natural. Os morcegos são os grandes aliados da preservação dos livros porque comem os insectos e, de uma forma ecológica, resolvem um problema complicado e grave sem o recurso a químicos.
Para favorecer esta “aliança” os morcegos não são hostilizados, pelo contrario são criadas as chamadas zonas de conforto. Desconhecem-se onde estão as colónias. Estudos permitem concluir que durante o inverno permanecem no interior da Biblioteca e no verão ficam nas árvores.
Dizer ainda que a Biblioteca Monástico Real do Palácio Nacional de Mafra é uma das mais importantes bibliotecas europeias, com um valioso acervo de cerca de 36.000 volumes, um “ex libris” da ilustração esclarecida do séc. XVIII.

De destacar algumas obras raras como a colecção de incunábulos (obras impressas até 1500) ou a famosa “Crónica de Nuremberga” (1493), bem como diversas Bíblias ou a primeira Enciclopédia (conhecida como  de Diderot et D’Alembert), os Livros de Horas iluminados do Séc. XV e ainda um importante núcleo de partituras musicais de autores portugueses e estrangeiros, como Marcos Portugal, J. de Sousa, João José Baldi, entre outros, especialmente escritas para o conjunto dos seis órgãos históricos da Basílica.
Os livros proibidos
A biblioteca de Mafra mantém ainda hoje a mesma organização que tinha no século XVIII. São 85 estantes no piso superior e 54 no inferior. Nas número 49, 50 e 51, no primeiro andar e com “Miscelânia vária” escrito no local habitualmente ocupado pelo tema, estão os chamados livros proibidos, cerca de 800 volumes, embora haja obras condenadas pelo Índex (lista de livros cuja circulação tinha de ser controlada pela Inquisição) espalhados por toda a biblioteca, garante Teresa Amaral.
“Os livros proibidos são comuns a todas as grandes bibliotecas da época e ter autorização papal para os incluir nas colecções era um sinónimo de grande prestígio”, explica, referindo-se à bula de Bento XIV, de 1754, que institui a biblioteca e a autoriza a ter estes volumes. São de áreas tão diversas como a cosmologia, a astronomia, a astrologia, a alquimia, mas também há os chamados “heréticos ou de controvérsia”, os de ciência política e os que abordam temas relacionados com a organização social e o absolutismo, continua Amaral.
Entre os proibidos mais importantes estão, por exemplo, uma raríssima edição do Corão; Metoposcopia, um manual que pretende ensinar a ler a personalidade de cada um a partir das marcas e linhas do seu rosto; e obras de nomes como Martinho Lutero, teólogo alemão e figura central da Reforma Protestante, e Cornelius Aggripa, intelectual do Renascimento ligado à magia e ao esoterismo que haveria de se transformar numa das grandes referências da alquimia. São, na sua maioria, volumes de altíssima qualidade produzidos nos séculos XVI e XVII, explica o director do palácio, Mário Pereira, falando de obras do humanista francês Michel de Montaigne (1533-1592) e de Gil Vicente.
Os livros, detalha a bibliotecária, estavam sujeitos a um sistema de proibição que incluía várias “classes”, que podiam impedir a leitura de toda a obra de determinado autor ou limitar-se a vedar o acesso a uma frase dentro de um texto. Giordano Bruno, filósofo e teólogo italiano condenado à fogueira pela Inquisição, acusado de heresia por defender, entre outras coisas, que a Terra girava à volta do sol, está entre os que ocupam as estantes 40 a 51.
“Pensar que em Mafra, em meados do século XVIII, todo este pensamento está aqui, é incrível. E pensar que tudo isto sobreviveu à extinção das ordens religiosas, às Invasões Francesas e à República também é”, conclui o director.


30 comentários:

  1. O património das bibliotecas portuguesas é riquíssimo.
    Os livros e os edifícios.
    Aquele abraço

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    1. Temos muita coisa maravilhosa, também a este nível.
      Um abraço

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  2. Estive lá há dois anos numa visita de estudo e fiquei maravilhada. É fantástica.
    Abraço e saúde

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  3. Bom dia
    Portugal foi e é um país de grande cultura , e temos que nos orgulhar do nosso património .

    J R

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  4. Cá está ela! E que belíssima homenagem!

    Escusado será dizer que gostei muito!

    Um abraço do Algarve,

    Sandra Martins

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    1. Esta foi quase a pedido mas merece a referência.
      Um abraço de Almada.

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  5. Gostei de ler estas informações sobre a biblioteca do Palácio Nacional de Mafra, que não conheço. Conheço sim, a Biblioteca Joanina em Coimbra, que também é muito bela.

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  6. Acredito que seja uma biblioteca maravilhosa de visitar
    .
    Um dia feliz

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  7. Impressionante.
    Gostaria muito de conhecer.

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  8. Há 7 anos visitei. Já tinha visitado à quase 40 anos,(o meu marido fez lá a tropa) era muito jovem. A ultima vez amei a visita. Ai quero voltar lá outra vez.
    -
    Areia molhada, e um silêncio no coração.

    Beijos e um excelente dia!

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    1. Não está muito longe. É pôr pés ao caminho.
      Beijos, boa tarde.

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  9. As colónias de morceguitos, situam-se atrás das estantes, ficam no escurinho, durante o dia, e aconchegadinhos!... :-))
    Lá dentro... já lá fui há uma série de anos... cá por fora... passo com imensa frequência a caminho da Ericeira... não este ano... por ser ano de Covid...
    Beijinhos
    Ana

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  10. Fui lá há muitos anos, foi bom voltar a recordá-la com estas fotografias. Na altura não tinha máquina fotográfica.
    Muito bonita esta biblioteca. Obrigado António

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  11. É uma biblioteca linda!
    Gostei de ficar a saber algumas das suas particularidades. Já lá fui, mas tenho pena que não se possam percorrer os corredores. É maravilhosa demais para ficarmos somente com uma percepção geral.

    Um abraço, António.

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    1. Regras da casa, eles lá sabem porquê.
      Um abraço, Alexandra.

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  12. Parece mentira, mas não conheço.:(
    Há livros de consulta presencial? Só para estudiosos vs investigadores ou para o público em geral?
    Penso que haverá um fundo - termo técnico utilizado - que está nos reservados, é comum nas grandes bibliotecas e esses exemplares não são acessíveis ao público no seu todo.
    Fiquei curiosa, gostava de saber como funciona.

    Obrigada pela partilha desse "mundo" maravilhoso.:)

    Beijinho.

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    1. Há áreas da biblioteca interditas ao público.
      Não conheço bem o funcionamento desta biblioteca.
      De nada, GL, beijinho.

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  13. Conheço e até vi os morcegos que a habitam...

    Boa noite

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    1. A mistura dos livros com os morcegos resulta?
      Bom dia de quarta.

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    2. A explicação que nos foi dada vai nesse sentido.

      Tudo de bom

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    3. Há mais bibliotecas a usar morcegos.
      Bom dia de quinta.

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  14. Conheço bem porque já lá fui várias vezes e gosto muito. Também e antes desta pandemia passei por lá e ouvi os sinos (carrilhão) que foram restaurados e já estão no sitio certo. Demorou anos mas é um dos sons que mais gosto.
    Beijos e um bom dia

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    1. Os 119 sinos e os dois carrilhões ficaram sujeitos a um “silêncio forçado” durante 20 anos, à espera de obras de requalificação e “presos” por andaimes desde 2004.
      A 2 de Fevereiro de 2010 voltaram a tocar.
      Beijos, bom dia de quarta.

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