Lembrar é um imperativo.
Lembrar Salvador Allende e o seu legado, mas também quem o derrubou, Augusto
Pinochet. Passaram 53 anos desde o golpe militar que abalou o Chile, em 1973. Nesse
11 de Setembro, o presidente democraticamente eleito, Allende, foi assassinado
em pleno palácio presidencial, na sequência de intensos bombardeamentos que
envolveram tanques e aviões das forças armadas. Era o fim de um governo de
esquerda que tinha tornado o Chile numa esperança para a América Latina e para
o mundo, porque ali era a arraia miúda que protagonizava a História e a justiça
e a dignidade formavam um património que era de todos. Era o início do domínio
sangrento do general líder das forças armadas, aríete manobrado pela oligarquia
chilena, detentora da propriedade e dos privilégios, e pela cínica garra dos
serviços secretos norte-americanos.
Neste aniversário do golpe
militar de 1973, no Chile, recordam-se as dezenas de milhar de vítimas da
ditadura de Pinochet, os que desapareceram, os que foram assassinados, presos,
perseguidos e torturados, vítimas de um trauma coletivo que gerou um tsunami
de dor e atingiu familiares e entes queridos. O ditador morreu em 2006, sem
nunca ter sido condenado pela justiça chilena. Entretanto, há 5 anos, esta deu
como provado o desvio de 17 milhões de dólares do erário público para contas da
família Pinochet no estrangeiro.
Não há garantias de que a
História não se repita. O ex-presidente chileno, Gabriel Boric, um jovem de 37
anos, assumidamente de esquerda, envidou esforços para que todas as forças
políticas do país assinassem uma declaração conjunta afirmando que nunca, em
hipótese alguma, se poderia voltar a justificar o recurso a um golpe militar.
Os partidos mais à direita recusaram-se a assinar a declaração, tal como
continuam a recusar-se a condenar o golpe militar de Pinochet.
Nos nossos dias, recordar
estes eventos é contribuir para a construção de uma memória coletiva que deve
ser transmitida às novas gerações, se queremos formar cidadãos com pensamento
crítico, com consciência da História, que valorizem a conquista dos direitos
sociais e das liberdades democráticas, que respeitem a diversidade e o
pluralismo, que sejam agentes da mudança, e não meros espectadores da mudança.

