Na região do Seixal jazem
vários destes magníficos exemplares de arqueologia industrial. São moinhos de
maré que já tiveram um papel fundamental em toda a sociedade portuguesa.
A indústria moageira foi um
dos sinais de desenvolvimento de uma população, pois dela estava dependente a
sua subsistência. A quantidade de moinhos existentes em determinada região, é
certamente um dos critérios que melhor testemunham a expansão demográfica e
económica de cada local, tendo em conta as leis de oferta e procura.
Também se deveu a esta
indústria a nossa expansão marítima, além de que tornou possível as pescas em
mares distantes. Eram nestes moinhos produzidas as farinhas que constituíam a
alimentação dos nossos lobos do mar.
O "biscouto" ou a
bolacha de embarque era o "pão nosso de cada dia" das tripulações por
não se degradar facilmente, e aguentava longas viagens e temperaturas tropicais
até ganhar minhocas ... que também eram aproveitadas com fins nutritivos.
Mas falando mais concisamente
deste local, o moinho de maré do Brayner ou moinho do descanso.
O Moinho de Maré do Brayner ou
Moinho do Descanço, situado na margem esquerda do rio Coina, próximo da Quinta
da Trindade no Seixal, é um exemplar quinhentista de arqueologia industrial.
Construído no século XV/XVI,
foi reconstruído após o terramoto de 1755, transformado em fábrica de massas
(Fábrica Sereia) no século XIX e, posteriormente, em unidade de adubos na
década de 1930.
O Moinho do Descanso estava
ligado à fabrica do Brayner e era
composto por duas instalações que se sobrepunham, ambas as unidades eram
servidas pela água do mesmo reservatório e tinham 8 moendas, cada uma
produziria em média perto de 300 Kg / dia, o que fazia deste moinho um dos mais
importantes da região em termos de produtividade.
Na segunda metade do Séc. XIX ,
este moinho foi adaptado para uma fábrica de massas alimentícias da firma
Miguéis & Filhos, que em 1895 entrou na era do vapor. Foi ali instalada uma roda clássica, movida
por um sistema de tambores e correias, que accionavam o mecanismo pelo rodízio,
tirando partido da corrente de ambas as marés, o que aumentou exponencialmente
a produção. Dava na altura trabalho a cerca de quarenta almas.
Nos anos trinta do século XX,
foi instalada no mesmo local a empresa Sereia - Fábrica de Adubos Orgânicos,
Lda., produzindo farinhas, óleos de peixe e adubos orgânicos a partir dos
desperdícios das fábricas de peixe, mantendo-se em laboração até 1976.
Foi em 1908, que esta fábrica
foi adquirida pela Companhia Nacional de Moagens, passando a fazer parte de um
vasto monopólio que quando ruiu deixou profundas cicatrizes neste País.
Esta actividade foi contestada
pelas populações do Seixal e de Paio Pires. Devido à moagem, resíduos e
armazenagem de peixe, o cheiro nauseabundo que dali emanava ameaçava a saúde
publica e afastava qualquer incauto que por ali se aventurasse, condenando todo
o ambiente e sanidade mental/emocional ao mais insensível dos munícipes.
A questão resolveu-se quando
sabiamente substituíram o produto final por conservas de peixe. Peixe esse que
gozava o estatuto de fresco e poderia ser "aturado" com mais
facilidade, o seu aroma deveria ser considerado perfume comparado ao da matéria
prima da indústria anterior, além de dar emprego a cerca de 300 senhoras num
espaço de convívio com 2500 m2.
Enlatavam-se por dia, três
camionetas de sardinha em azeite, cavala, atum e carapau, que atarefadamente
chegavam da lota de Setúbal.
Atualmente, o Moinho do
Breyner encontra-se em ruínas, constituindo um testemunho da arqueologia
industrial da margem sul do Tejo. O moinho integrava uma estrutura complexa,
com casa de moagem, habitação para o moleiro, armazéns e um cais de embarque,
essencial para o transporte de cereais e farinhas na época.
A Sereia foi feliz até 1989,
até que fechou os portões por inviabilidade financeira, e desde então que deste
local só restam memórias.





