quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Moinho do Brayner

 

Na região do Seixal jazem vários destes magníficos exemplares de arqueologia industrial. São moinhos de maré que já tiveram um papel fundamental em toda a sociedade portuguesa.

A indústria moageira foi um dos sinais de desenvolvimento de uma população, pois dela estava dependente a sua subsistência. A quantidade de moinhos existentes em determinada região, é certamente um dos critérios que melhor testemunham a expansão demográfica e económica de cada local, tendo em conta as leis de oferta e procura.

Também se deveu a esta indústria a nossa expansão marítima, além de que tornou possível as pescas em mares distantes. Eram nestes moinhos produzidas as farinhas que constituíam a alimentação dos nossos lobos do mar.

O "biscouto" ou a bolacha de embarque era o "pão nosso de cada dia" das tripulações por não se degradar facilmente, e aguentava longas viagens e temperaturas tropicais até ganhar minhocas ... que também eram aproveitadas com fins nutritivos.

Mas falando mais concisamente deste local, o moinho de maré do Brayner ou moinho do descanso.

O Moinho de Maré do Brayner ou Moinho do Descanço, situado na margem esquerda do rio Coina, próximo da Quinta da Trindade no Seixal, é um exemplar quinhentista de arqueologia industrial.

Construído no século XV/XVI, foi reconstruído após o terramoto de 1755, transformado em fábrica de massas (Fábrica Sereia) no século XIX e, posteriormente, em unidade de adubos na década de 1930.

O Moinho do Descanso estava ligado à  fabrica do Brayner e era composto por duas instalações que se sobrepunham, ambas as unidades eram servidas pela água do mesmo reservatório e tinham 8 moendas, cada uma produziria em média perto de 300 Kg / dia, o que fazia deste moinho um dos mais importantes da região em termos de produtividade.

Na segunda metade do Séc. XIX , este moinho foi adaptado para uma fábrica de massas alimentícias da firma Miguéis & Filhos, que em 1895 entrou na era do vapor.  Foi ali instalada uma roda clássica, movida por um sistema de tambores e correias, que accionavam o mecanismo pelo rodízio, tirando partido da corrente de ambas as marés, o que aumentou exponencialmente a produção. Dava na altura trabalho a cerca de quarenta almas.

Nos anos trinta do século XX, foi instalada no mesmo local a empresa Sereia - Fábrica de Adubos Orgânicos, Lda., produzindo farinhas, óleos de peixe e adubos orgânicos a partir dos desperdícios das fábricas de peixe, mantendo-se em laboração até 1976.

Foi em 1908, que esta fábrica foi adquirida pela Companhia Nacional de Moagens, passando a fazer parte de um vasto monopólio que quando ruiu deixou profundas cicatrizes neste País.

Esta actividade foi contestada pelas populações do Seixal e de Paio Pires. Devido à moagem, resíduos e armazenagem de peixe, o cheiro nauseabundo que dali emanava ameaçava a saúde publica e afastava qualquer incauto que por ali se aventurasse, condenando todo o ambiente e sanidade mental/emocional ao mais insensível dos munícipes.

A questão resolveu-se quando sabiamente substituíram o produto final por conservas de peixe. Peixe esse que gozava o estatuto de fresco e poderia ser "aturado" com mais facilidade, o seu aroma deveria ser considerado perfume comparado ao da matéria prima da indústria anterior, além de dar emprego a cerca de 300 senhoras num espaço de convívio com 2500 m2.

Enlatavam-se por dia, três camionetas de sardinha em azeite, cavala, atum e carapau, que atarefadamente chegavam da lota de Setúbal.

Atualmente, o Moinho do Breyner encontra-se em ruínas, constituindo um testemunho da arqueologia industrial da margem sul do Tejo. O moinho integrava uma estrutura complexa, com casa de moagem, habitação para o moleiro, armazéns e um cais de embarque, essencial para o transporte de cereais e farinhas na época.

A Sereia foi feliz até 1989, até que fechou os portões por inviabilidade financeira, e desde então que deste local só restam memórias.

terça-feira, 5 de maio de 2026

É a vida ...

Confesso que hoje estou um bocado em baixo. Não tem nada a vêr com a situação política do pais, o Trump, o Irão, o Libano, etc, etc. Nada disso.

É que passou mais um dia na minha vida e, desilusão, não utilizei o   Teorema de Pitágoras, nem a hipotenusa, nem os catetos.

Afinal, andei a queimar os poucos neurónios para quê?



segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um livro

A Metamorfose, de Franz Kafka, é uma obra-prima da literatura modernista que narra a história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que, de repente e sem motivo aparente, acorda transformado em um inseto gigante. A partir desse evento surreal, o livro mergulha nas profundezas da alienação, do isolamento e da desumanização.

A narrativa e os temas centrais

A história, contada de forma direta e sem rodeios, foca na perspectiva de Gregor e na reação de sua família diante da sua nova condição. A transformação não é explicada, e o livro se concentra nas consequências desse absurdo. A família, inicialmente chocada e solidária, gradualmente se volta contra Gregor, que passa de provedor e pilar da casa a um fardo vergonhoso e repulsivo.

Os temas de alienação e isolamento são centrais na obra. Antes da transformação, Gregor já vivia uma vida monótona e solitária, dedicada a sustentar a família. Sua nova forma física intensifica esse isolamento, tornando-o incapaz de se comunicar e de interagir com o mundo que conhecia. Ele se torna um estranho em sua própria casa, confinado ao seu quarto.

A desumanização é outro ponto crucial. Aos poucos, a família e a própria sociedade parecem esquecer que, por baixo da carapaça de inseto, ainda existe um ser humano com sentimentos e pensamentos. Gregor é tratado como um objeto, um incômodo, e sua humanidade é progressivamente negada.

O estilo e o legado de Kafka

O estilo de Kafka é inconfundível. Sua prosa é clara, precisa e meticulosa, o que contrasta de forma impressionante com o tema bizarro e irreal. Ele descreve o absurdo com uma seriedade quase burocrática, o que cria uma atmosfera de pesadelo e angústia. Esse tom é a essência do que hoje conhecemos como "kafkiano": uma situação complexa, absurda e opressiva, onde o indivíduo se sente impotente diante de forças que não compreende.

A Metamorfose é uma obra poderosa e atemporal que nos convida a refletir sobre a fragilidade das relações humanas, a indiferença da sociedade e a busca por sentido em um mundo muitas vezes ilógico e cruel. É um livro que desafia o leitor, deixando uma marca profunda e duradável.

O autor 

Franz Kafka (1883–1924) foi um romancista judeu checo de língua alemã, cuja ficção visionária e surreal explorou temas como alienação, ansiedade e absurdo burocrático. Nascido em Praga, trabalhou no ramo de seguros enquanto escrevia obras icónicas como A Metamorfose (1915). Morreu jovem de tuberculose, deixando grande parte de sua obra, incluindo O Processo e O Castelo, para ser publicada postumamente contra a sua vontade.



 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A hipocrisia ao mais alto nível.

Comprou uma embalagem com “Volta”?

Então, isto é sobre reciclagem com troco.

Se viu a palavra “Volta” na garrafa ou na lata, não é um convite espiritual para refletir sobre a vida.

É um aviso subtil de que acabou de pagar mais 10 cêntimos … com a promessa de que os pode reaver.

Se se portar bem. Se guardar a embalagem. Se a máquina estiver de bom humor.

Bem-vindo ao sistema de depósito com retorno.

Passo 1

Pagar 10 cêntimos com dignidade

Compra a bebida.

Paga.

E ali, discreto, infiltrado no preço, vai um extra: +0,10 € de esperança reciclável.

Não é taxa. Não é multa.

É um empréstimo que faz ao universo, que o universo aceita devolver … através de uma máquina que parece um multibanco com ressaca.

Passo 2

A súbita valorização do lixo

De repente, aquela garrafa vazia já não é lixo.

É património financeiro.

Você passa a tratá-la com respeito.

Não amassa.

Não pisa.

Não atira para o saco.

Transporta-a como se fosse porcelana chinesa.

Porque agora ela vale dinheiro.

Pouco, mas vale. E isso muda tudo.

Passo 3

O encontro com a máquina.

Chega ao supermercado. Lá está ela. A máquina.

A máquina olha para si. Você olha para a máquina.

É um duelo silencioso.

Introduz a garrafa.

A máquina analisa como se estivesse a fazer um raio-X à sua alma.

“Embalagem válida.”

Milagre.

Ou então:

“Embalagem rejeitada.”

Crise existencial.

Passo 4

O talão, o troféu, a glória.

Se tudo correr bem, a máquina cospe um talão.

Não é só papel.

É a prova de que venceu o sistema.

Vai ao caixa. Entrega o talão.

E recebe os seus gloriosos 10 cêntimos de volta.

Nunca 10 cêntimos tiveram tanto significado emocional.

 

Passo 5

Percebe finalmente o sentido da palavra “Volta”

Não é para virar a embalagem.

É para você voltar ao supermercado.

Com lixo.

Voluntariamente.

Organizado.

Quase orgulhoso.

Conclusão oficial não oficial

Quando vir “Volta” numa embalagem, saiba:

Pagou mais.

Guardou lixo com carinho.

Interagiu com uma máquina temperamental.

Recebeu 10 cêntimos como recompensa moral.

E, sem dar por isso, reciclou.

O planeta agradece.

A máquina tolera.

E você sai dali com troco … e dignidade ecológica restaurada.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O rato que deu nome ao Largo.

História, memória e teimosia urbana no coração de Lisboa.

Quem passa hoje pelo Largo do Rato dificilmente imagina que o nome não nasce de um animal, mas de uma pessoa. Como tantos outros topónimos lisboetas, “Rato” é um vestígio de camadas sucessivas de história, onde biografias individuais, instituições religiosas e decisões políticas se entrecruzam — e onde a memória popular acaba, quase sempre, por prevalecer.

A origem do nome remonta ao início do século XVII, quando aquela zona de Lisboa ainda não tinha o traçado urbano atual. Em 1621, Manuel Gomes de Elvas, influente cristãonovo, fundou ali um convento destinado às Senhoras da Ordem da Santíssima Trindade. O edifício, conhecido como Convento Trino, dominava o espaço envolvente e era, durante muito tempo, a construção mais nobre da área. Após a morte do fundador, a proteção do convento passou para os seus descendentes, perpetuando uma ligação familiar ao lugar.

Entre esses descendentes destacouse Luís Gomes de Sá e Meneses, personagem hoje quase esquecida, mas decisiva para a história do topónimo. Era conhecido pela alcunha de “o Rato”, um epíteto cuja origem se perdeu no tempo, mas que se fixou com surpreendente eficácia. Primeiro colouse ao convento; depois, alastrou naturalmente ao largo fronteiro. Assim nasceu o “Largo do Rato”, não por decisão administrativa, mas por uso corrente — esse mecanismo informal que tantas vezes batiza a cidade de forma mais duradoura do que os decretos.

Durante séculos, o nome mantevese sem contestação relevante, integrado na geografia afetiva de Lisboa. O “Rato” deixou de remeter para o homem concreto que lhe dera origem e passou a existir como palavra autónoma, desligada do seu patrono inicial. Era já um nome de lugar puro, enraizado na linguagem quotidiana dos lisboetas, mesmo quando a figura histórica se tornava obscura.

Essa força da tradição ficou particularmente evidente no início do século XX. Após a implantação da República, em 1910, surgiu a intenção de renomear o largo como Praça do Brasil, numa tentativa simbólica de homenagear a jovem República dos Estados Unidos do Brasil e de alinhar a toponímia com o novo regime político. O gesto pretendia apagar marcas do passado monárquico e religioso, substituindoas por referências republicanas e internacionais.

A proposta, contudo, revelouse um fracasso. Apesar de oficialmente adotada, a nova designação nunca foi verdadeiramente assimilada pela população. Para os lisboetas, o espaço continuou a ser o “Rato”, como sempre fora. A resistência não foi organizada nem ideológica; foi simplesmente prática, quotidiana, quase inconsciente. Diziase “Rato” porque sempre se dissera, e porque os nomes sobrevivem mais pelo uso do que pela lei. Em 1948, o poder político acabou por reconhecer esse facto e restaurou oficialmente a designação Largo do Rato.

A história do nome é, assim, também uma pequena biografia coletiva. Fala de um homem e da sua alcunha, de uma família e do seu legado, de um convento que moldou o território e de uma população que recusou deixarse afastar da sua própria linguagem. O Largo do Rato tornouse um exemplo discreto da forma como Lisboa guarda o passado não apenas em monumentos, mas nas palavras que persistem.

Hoje, o topónimo é tão naturalizado que raramente suscita perguntas. Mas por detrás do nome insólito está uma narrativa de continuidade, resistência e memória urbana. O Rato sobreviveu porque deixou de pertencer à História oficial para passar a integrar a fala comum. E é nesse território — entre o esquecimento do indivíduo e a permanência do nome — que Lisboa constrói, muitas vezes, a sua identidade mais verdadeira.