segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Assim vai o País ...

A história conta-se muito rapidamente.

Depois dos protestos por essa Europa fora, mas sobretudo em Madrid, também por cá se lembraram de acampar numa praça, neste caso na Praça D. João I, no Porto.

Esta manifestação foi contra a crise na habitação, mas juntou muitas outras bandeiras, como a da Palestina. Compreendo manifestações em defesa do povo palestiniano, já tenho mais dificuldade em compreender manifestações em defesa do povo palestiniano numa manifestação em defesa de mais casas e mais baratas em Portugal.

O mesmo se pode dizer das bandeiras LGBT, quantas vezes fora do contexto. São contra o capitalismo, mas também já vendem packs de atiivismo. Um único protesto, mas muitas causas. Um pot-pourri.

Entretanto, a Câmara Municipal do Porto tem vindo a tentar desocupar o espaço público, removendo as tendas. O protesto não foi legal. Não foi autorizado. Na madrugada de quinta-feira, a Polícia de Segurança Pública interveio, carregando sobre os manifestantes. Mais de 30 feridos.

Temos aqui duas questões: a ocupação do espaço público, que será matéria de competência da Câmara, e o protesto, coisa mais constitucional. São duas questões autónomas, mas que estão dentro de uma mesma tenda.

Salvo melhor opinião, não existindo um perigo real para pessoas e bens, estas intervenções policiais deviam ter mais suporte legal. Não é saudável a polícia entrar assim, com uma ordem que é muito mais política do que administrativa. Aliás, nos escassos comentários que já observei do poder político — nacional e local —, há um preconceito claro em relação à natureza do protesto. Eu posso sofrer do mesmo preconceito, mas devemos tentar afastá-lo, sobretudo quando exercemos cargos públicos.

A decisão operacional é da força de segurança quanto ao momento e à proporcionalidade, mas há uma ordem política — foram chamados — e se quem a deu não se coíbe de qualificar as intenções dos manifestantes, então já saiu do campo da mera observação legal do protesto — a questão administrativa — e está a travá-lo pelo seu objeto.

Isto, goste-se ou não, é muito perigoso.

Há regras para as manifestações, sim. Desde logo, autorizações. Também há limites ao que se pode fazer. Tudo isto é verdade. Ainda assim, perante infrações, há decisões a tomar e o uso da força, neste caso, pareceu excessivo. Há sempre margem legal para a tolerância. Não se observando qualquer risco para a segurança pública, não é fácil justificar que o bastão tenha saído do cinto.

Perante o dilema, diria que o Estado de Direito está mais protegido quando um protesto ilegal mas ordeiro se prolonga do que quando se recorre à força para lhe pôr termo. Mais ainda quando nos lembramos de dizer que, por acaso, nem gostamos dos manifestantes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Grande muralha verde

Enquanto muitas nações discutem soluções para enfrentar as mudanças climáticas e a desertificação, a China aposta em uma estratégia que pode ser vista até do espaço. Desde 1978, o país desenvolve a chamada Grande Muralha Verde, um gigantesco projeto de reflorestamento que pretende criar uma barreira de aproximadamente 4.500 quilômetros para conter o avanço dos desertos de Gobi e Taklamakan. Até agora, mais de 66 bilhões de árvores já foram plantadas, e a meta é adicionar outras 34 bilhões até 2050.

Os resultados impressionam. A cobertura florestal chinesa ultrapassou 25% do território nacional, e recentemente o Deserto de Taklamakan foi cercado por um cinturão verde considerado um marco histórico pelo governo. Estudos com imagens de satélite indicam que o projeto já está alterando o ciclo da água na atmosfera das regiões norte e oeste do país, além de ajudar a reduzir a erosão do solo e as tempestades de areia que durante décadas afetaram cidades como Pequim.

Mas a iniciativa também enfrenta desafios importantes. Grande parte das áreas reflorestadas foi composta por monoculturas de espécies de crescimento rápido, como choupos e salgueiros. Embora eficientes para ocupar grandes extensões de terra, essas árvores são mais vulneráveis a pragas e doenças. Em alguns casos, surtos de patógenos destruíram milhões de árvores, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo adotado.

Outro ponto de preocupação é o alto consumo de água em regiões naturalmente áridas. Pesquisadores alertam que o plantio de espécies inadequadas pode aumentar a mortalidade das árvores e até agravar processos de desertificação em determinadas áreas. Por isso, cientistas defendem uma nova fase do projeto baseada em espécies nativas e maior diversidade vegetal. Entre sucessos e desafios, a Grande Muralha Verde segue como uma das mais ambiciosas experiências de engenharia ecológica já realizadas pela humanidade.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Avilez e Coelho, a dupla que faz lembrar o antigamente.

Passos Coelho foi à SIC dar uma entrevista a uma senhora jornalista do velho regime. Quando digo velho regime, falo na monarquia portuguesa, caída em desgraça em 1910. Aliás, quando digo velho regime, falo numa aristocracia que caída em desgraça, continuou ao longo do século XX a alimentar a ideia salvífica e redentora que um dia seria recuperada ou pelo regresso ao sistema monárquico ou por um grande líder que defenderia a sua importância e grandeza. Muita dessa aristocracia caída em desgraça encostou-se ao estado novo. Tentou salvar-se o melhor que conseguiu, ora ingressando nos quadros públicos da máquina do estado, ora em negócios corporativistas, mas sempre acreditando que um dia, tal como Franco em Espanha, Salazar lhes devolveria (na forma de uma monarquia constitucional) os favores e “sacrifícios” que essa velha elite fizera, abrilhantando com graça e panache, uma ditadura que por aqui reinou durante 48 anos. Muitos deles, até se tornaram defensores – ainda hoje – do ditador, como se nele vissem o rei que Portugal já não podia ter. Lixaram-se. A revolução feita pelos militares não incluiu nenhum privilégio para essa “gente de qualidade”. Ainda assim, a maioria, que não fugiu do país e tentou adaptar-se, acabou por “aceitar” o novo sistema democrático e virar à direita, escolhendo um dos partidos disponíveis que melhor representassem os seus “valores”:  CDS e PSD.  Ao longo destes cinquenta anos, vários foram os delfins da direita a quem esta nobreza de classe apostou todas as fichas. Cavaco Silva, Durão Barroso e mais recentemente Passos Coelho. Aliás, Passos Coelho foi o que melhor personificou. Essa ideia que roçava ao mítico regresso de el-rei D. Sebastião que essa gente sonhava para Portugal. Louro. Bonito. Bem falante. De direita. Com laivos de enfant-terrible. Mas, acima de tudo, parecia um homem com consciência de classe.  Felizmente ou infelizmente, o menino-prodígio chegou ao poder com uma crise nacional e mundial nas mãos e como até sabia ler, pegou no memorando da TROIKA e executou todas as “recomendações” que a Europa “sugeria”.  Bom aluno e bem mandado, diria eu. Tão bem mandado, que fez mais do que devia. Esse “mais do que devia” acabou por estrangular por completo não só a economia como o consumo. Passos Coelho demonstrava, finalmente, a sua maior incapacidade: governar um país. Tinha-o confundido com uma pequena empresa de serviços ou uma fábrica de cabides. Achou que tudo se resolveria por milagre, bastava seguir o livro de instruções. Ora, um país não é uma ciência exata. Nem 10 milhões de pessoas são 10 milhões de funcionários. Quando ganhou as eleições, mas perdeu o poder, o país aprendeu, finalmente, como ir às urnas em dia de eleições, é fundamental para o exercício matemático do poder. O sistema democrático não funciona como a classificação dos clubes no campeonato de futebol. Não ganha quem vai à frente. Ganha quem reúne maior consenso. E esse consenso foi apelidado de geringonça.  Não, não é uma geringonça: é a democracia a funcionar.  Passos Coelho arrumou as botas e foi tratar da sua vida.  Entretanto, os anos passaram, o Chega apareceu no firmamento da política portuguesa, o PSD voltou ao poder e a extrema-direita deixou de ter vergonha.  Uma extrema-direita que vem cheia de indignações, valores familiares e religiosos, até patrióticos, mas cuja principal função tem sido destabilizar o sistema democrático e pelo caminho dar “mama” a uma cambada de gente que, expulsa de todos os partidos políticos deste país, encontrou um nicho para refazerem as suas vidas.  (recomendo a leitura do livro sobre o partido, escrito pelo jornalista Miguel Carvalho).  O Chega é esse nicho que, entretanto, e graças à mentira, desinformação, discurso rasca e redes sociais, convenceu e convence um milhão e meio de portugueses que vai ficar tudo bem quando eles chegarem ao poder. Como nas boas telenovelas, o passado nunca fica arrumado e volta sempre para se vingar. Nesta telenovela, André Ventura e Passos Coelho são duas faces da mesma moeda (é ler o livro que se recomenda acima) e, sendo assim, como não recuperar agora a possibilidade de um governo de maioria absoluta, entre os dois, para acabar de vez o que ele não conseguiu quando foi governo?   Ventura, inventado por Passos Coelho e traído por Montenegro no tempo em que eram camaradas de partido, está disposto a tudo, desde que seja governo e Passos Coelho vem com as intenções de um justiceiro: pôr o país na ordem. Na ordem… já sabemos o que quer dizer. Matar o estado social, transformar o mercado da habitação e do trabalho numa roleta russa, empurrar os pobres para a indigência sem serviço nacional de saúde. Ou seja: ele vem repor uma ordem que se perdeu nestes cinquenta anos e que é preciso que volte. Se não volta a monarquia, volta uma coisa parecida, onde cada um sabe o seu lugar.  Infelizmente, até ele sabe que o país sofre e sempre sofreu de  um elevado grau de “síndrome de Estocolmo”.  A igreja católica fez por isso ao longo destes 900 anos de História.   É um povo que se desconsidera acima de tudo e que está disposto a acreditar que um salvador da pátria virá para tomar conta de todos nós. Passos Coelho acredita que é esse salvador. Não do país. Não dos 10 milhões de cidadãos que compõem este país, mas de uma ideia ressequida, antiga e medieval que faz de Portugal.

Para terminar uma pequena lembrança. Quando Passos Coelho era governo e andava a desmantelar o país, a poeta e escritora Maria Teresa Horta ganhou um prémio literário atribuído pela Fundação Casa de Mateus. Um prémio de prestígio. A entrega do prémio seria feita pelo então primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho. Ao saber disto, Maria Teresa Horta recusou. Disse que não o receberia das mãos daquele homem. Sabem como foi que ele reagiu? Acabou com o apoio que o estado português dava ao prémio. Simples.

Esta é a cabeça do homem que esteve e está estes anos todos à espera de se vingar de todos nós.  A Maria João Avilez, na SIC, serviu-lhe um chá e madalenas, como é próprio de uma grande senhora de sociedade, filha de “pessoas de qualidade” como se dizia antigamente.

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Barack Hussein Obama II (ainda) é um Senhor.

 No passado sábado, no MEO Arena, Barack Obama, o antigo presidente americano, falou a uma audiência maioritariamente empresarial, num ambiente que, à partida, lhe era muito simpático.

Obama é hoje uma das faces mais decentes da América. Falou de liderança, de tecnologia, da confiança nas instituições e da necessidade de reconstruir pontes num mundo cada vez mais fragmentado. Disse tudo com a sua habitual elegância. Mas o que mais me ficou foi aquilo que (espero não me enganar) não disse: o nome do seu sucessor.

Trump, contudo, foi sempre o verdadeiro elefante na Arena: enorme, impossível de ignorar e em quem todos fingiam não dar conta. Obama contornou-o com perícia. A plateia ajudou, aplaudindo, como quem prefere não olhar o óbvio.

É esse o efeito mais perturbador de Trump. Não está apenas nas políticas, nas guerras aduaneiras, nas guerras chocantes de retórica ou nas guerras a sério em que nos vai metendo a todos. Está na maneira como conseguiu deslocar o horizonte daquilo que parece cada vez mais aceitável, mesmo que de modo forçado.

Há dez anos, ouvir Obama falar de democracia seria um exercício de rotina. Hoje é quase um ato terapêutico, feito de nostalgia. Os empresários presentes não aplaudiam apenas um orador brilhante: aplaudiam a memória de um tempo em que as regras pareciam estáveis e a palavra de um presidente americano ainda significava alguma coisa de respeitável.

Essa evolução fez-se de forma subtil. Fomos perdendo a capacidade de nos indignarmos com o que antes seria impensável e ganhamos, em troca, uma espécie de crescente tolerância retroativa.

George W. Bush, o presidente responsável pela criminosa e devastadora invasão do Iraque, tem vindo a ascender ao panteão dos moderados. Obama, com os seus drones, as suas deportações, a sua catastrófica política externa (na Síria, na Líbia e no resto), com a manutenção de Guantánamo no cadastro, tornou-se a encarnação da decência. Trump funciona como um polarizador por contraste: tudo o que veio antes dele parece, subitamente, mais responsável, mais adulto.

E aqui está o perigo que a sala, apesar do entusiasmo, talvez não quisesse ver. A saudade de Obama, em si mesma, acaba por ser uma forma de evasão. Se o trauma de Trump nos leva a idealizar o passado, deixamos de perguntar porque é que o sistema que Obama representava não conseguiu travar o que veio depois. Pelos vistos, a decência, por si só, não soube gerar defesas. E a verdade é que Trump soube falar a quem ficou desiludido, desempregado ou simplesmente esquecido nos anos de Obama. E assim ganhou.

Quem esteve no MEO Arena, saiu de lá  com uma sensação ambivalente: gratidão por ter ouvido uma voz serena e inteligente, inquietação por perceber que a serenidade se tornou, nos nossos dias, como que uma absolvição, mesmo que sem uma evidente autocrítica.

Talvez o verdadeiro legado de Trump seja este: ensinar-nos a sentir saudades de tudo, menos a perguntar como chegámos até aqui e como vamos sair disto.