quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Comparando ...

Nas presidenciais de 1986 - Freitas, Soares, Pintasilgo, Zenha - as pessoas apareciam nos comícios, arruadas e ações de campanha com as bandeiras e os cachecóis dos clubes de futebol do coração. Não se sabe quem começou ou como começou, e até foi motivo de reportagens em telejornais. Perdeu-se; foi só naquela campanha, vá-se lá saber porquê.

Agora são as bandeiras da Palestina em manifs e concentrações pelo direito à habitação e pela educação para todos. Em Portugal, Espanha, França, Albânia, Bélgica, onde quer que haja contestação. E estas até percebemos porquê, dispensam motivos de reportagem nos telejornais. A reportagem que devia ser feita era sobre como do governo aos jornalistas e comentadores avençados todos usarem o tema da bandeira como forma de desvalorizar o protesto e a contestação. A bandeira de cada um é a bandeira de cada um.

A liderança é dada pelo exemplo, dizem eles.


 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O governo que temos. E merecemos?

Da validade dos passaportes ao acesso à saúde. Há perto de 100 grupos criados pelos governos de Montenegro e zero reformas.

O governo gaba-se de estar a reformar o país, a oposição queixa-se de que está tudo na mesma. Indo à procura da veia reformista da AD de Luís Montenegro encontram-se apenas algumas mudanças e muitas intenções. De 2 de Abril de 2024 até hoje foram criados quase 100 grupos de trabalho, comissões e estruturas de missão, mas os resultados são incipientes. Reformas estruturais, nem uma.

Entre os grupos criados, encontra-se o grupo de trabalho para o novo modelo de passaporte português. Que tinha como objetivo alargar de cinco para dez anos a validade do documento. Ainda não aconteceu.

Como este, há muitos outros: na área da saúde, da habitação para professores, do financiamento de respostas sociais, da energia, da cibersegurança, do combate à pobreza, da educação especial, da justiça ou da juventude, para citar apenas alguns exemplos.

 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Personalidades

Raúl Augusto Almeida Solnado é consensualmente considerado o pai do humor moderno em Portugal. Num país dominado pela rigidez da censura e pelo cinzento do Estado Novo, Solnado trouxe uma lufada de ar fresco, introduzindo o humor do absurdo, a comédia de pé (stand-up) e uma capacidade ímpar de comunicar com o público de todas as idades.

Nascimento: 19 de Outubro de 1929, na freguesia de Santos-o-Velho, Bairro da Madragoa, em Lisboa.

Solnado deu os primeiros passos no teatro amador na Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, passando rapidamente para o teatro de revista e a rádio. Em 1962, a sua carreira mudou para sempre com o célebre monólogo "A Guerra de 1908" (famoso pela frase "Liguei para a guerra e disse: 'É da guerra? Daqui fala do inimigo...'"). Este trabalho não só o consagrou nacionalmente, como se tornou um marco absoluto da comédia em língua portuguesa, chegando a vender centenas de milhares de discos.

A sua visão ultrapassava a representação: Solnado era um impulsionador cultural. Foi fundado do Teatro Villaret em Lisboa, um espaço que dinamizou a cena dramática da capital, e desempenhou um papel decisivo na criação e consolidação da Casa do Artista, uma instituição de apoio aos profissionais do espetáculo na sua velhice.

Na Rádio e Televisão de Portugal (RTP), Raúl Solnado foi rosto e motor de alguns dos formatos mais marcantes da história da televisão nacional:

"Zip-Zip" (1969): Criado por Raúl Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz, este talk-show gravado no Teatro Villaret revolucionou a televisão portuguesa. Emitido nas noites de segunda-feira, tornou-se um fenómeno social, dando palco à música de intervenção, à discussão de ideias e a um humor inteligente no final da década de 1960.

"O Lápis Azul" (1966): Um programa inovador onde brincava com os limites da própria censura.

"A Visita da Cornélia" (1977): Concurso de grande audiência apresentado com o seu tom caloroso, ao lado da famosa vaca de peluche "Cornélia".

"E o Resto é Cantiga" (1981): Programa de entretenimento e música ligeira.

"Fazer Humor com o Humor que Temos" (1982): Formato inteiramente dedicado à análise e prática da comédia.

"Ponto de Encontro" (década de 1990): Onde revelou a sua vertente mais humana e empática ao promover o reencontro de familiares e amigos separados pelo tempo.

Raúl Solnado teve três filhos e vários netos, existindo uma forte continuidade artística na família:

Filhos:

Alexandra Solnado: Nascida do seu casamento com a atriz brasileira Joselita Alvarenga. Alexandra começou por seguir a carreira de atriz e cantora na juventude, tornando-se mais tarde uma reconhecida autora e escritora na área da espiritualidade.

Renato Solnado: Também filho do casamento com Joselita Alvarenga.

Mikkel Solnado: Filho da sua relação com a dinamarquesa Hanne Wilhelmisen. Mikkel seguiu de perto o mundo do espetáculo, afirmando-se como cantor, compositor e produtor musical.

Netos que seguiram as pegadas:

Joana Solnado: Filha de Alexandra Solnado, é a herdeira mais visível do talento dramático do avô. É uma das mais conhecidas e prestigiadas atrizes da sua geração em Portugal, com uma longa carreira na televisão (telenovelas e séries), no cinema e no teatro.

Solnado faleceu a 8 de Agosto de 2009 (aos 79 anos), no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de doença cardiovascular.

 

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Assim vai o País ...

A história conta-se muito rapidamente.

Depois dos protestos por essa Europa fora, mas sobretudo em Madrid, também por cá se lembraram de acampar numa praça, neste caso na Praça D. João I, no Porto.

Esta manifestação foi contra a crise na habitação, mas juntou muitas outras bandeiras, como a da Palestina. Compreendo manifestações em defesa do povo palestiniano, já tenho mais dificuldade em compreender manifestações em defesa do povo palestiniano numa manifestação em defesa de mais casas e mais baratas em Portugal.

O mesmo se pode dizer das bandeiras LGBT, quantas vezes fora do contexto. São contra o capitalismo, mas também já vendem packs de atiivismo. Um único protesto, mas muitas causas. Um pot-pourri.

Entretanto, a Câmara Municipal do Porto tem vindo a tentar desocupar o espaço público, removendo as tendas. O protesto não foi legal. Não foi autorizado. Na madrugada de quinta-feira, a Polícia de Segurança Pública interveio, carregando sobre os manifestantes. Mais de 30 feridos.

Temos aqui duas questões: a ocupação do espaço público, que será matéria de competência da Câmara, e o protesto, coisa mais constitucional. São duas questões autónomas, mas que estão dentro de uma mesma tenda.

Salvo melhor opinião, não existindo um perigo real para pessoas e bens, estas intervenções policiais deviam ter mais suporte legal. Não é saudável a polícia entrar assim, com uma ordem que é muito mais política do que administrativa. Aliás, nos escassos comentários que já observei do poder político — nacional e local —, há um preconceito claro em relação à natureza do protesto. Eu posso sofrer do mesmo preconceito, mas devemos tentar afastá-lo, sobretudo quando exercemos cargos públicos.

A decisão operacional é da força de segurança quanto ao momento e à proporcionalidade, mas há uma ordem política — foram chamados — e se quem a deu não se coíbe de qualificar as intenções dos manifestantes, então já saiu do campo da mera observação legal do protesto — a questão administrativa — e está a travá-lo pelo seu objeto.

Isto, goste-se ou não, é muito perigoso.

Há regras para as manifestações, sim. Desde logo, autorizações. Também há limites ao que se pode fazer. Tudo isto é verdade. Ainda assim, perante infrações, há decisões a tomar e o uso da força, neste caso, pareceu excessivo. Há sempre margem legal para a tolerância. Não se observando qualquer risco para a segurança pública, não é fácil justificar que o bastão tenha saído do cinto.

Perante o dilema, diria que o Estado de Direito está mais protegido quando um protesto ilegal mas ordeiro se prolonga do que quando se recorre à força para lhe pôr termo. Mais ainda quando nos lembramos de dizer que, por acaso, nem gostamos dos manifestantes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Grande muralha verde

Enquanto muitas nações discutem soluções para enfrentar as mudanças climáticas e a desertificação, a China aposta em uma estratégia que pode ser vista até do espaço. Desde 1978, o país desenvolve a chamada Grande Muralha Verde, um gigantesco projeto de reflorestamento que pretende criar uma barreira de aproximadamente 4.500 quilômetros para conter o avanço dos desertos de Gobi e Taklamakan. Até agora, mais de 66 bilhões de árvores já foram plantadas, e a meta é adicionar outras 34 bilhões até 2050.

Os resultados impressionam. A cobertura florestal chinesa ultrapassou 25% do território nacional, e recentemente o Deserto de Taklamakan foi cercado por um cinturão verde considerado um marco histórico pelo governo. Estudos com imagens de satélite indicam que o projeto já está alterando o ciclo da água na atmosfera das regiões norte e oeste do país, além de ajudar a reduzir a erosão do solo e as tempestades de areia que durante décadas afetaram cidades como Pequim.

Mas a iniciativa também enfrenta desafios importantes. Grande parte das áreas reflorestadas foi composta por monoculturas de espécies de crescimento rápido, como choupos e salgueiros. Embora eficientes para ocupar grandes extensões de terra, essas árvores são mais vulneráveis a pragas e doenças. Em alguns casos, surtos de patógenos destruíram milhões de árvores, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade do modelo adotado.

Outro ponto de preocupação é o alto consumo de água em regiões naturalmente áridas. Pesquisadores alertam que o plantio de espécies inadequadas pode aumentar a mortalidade das árvores e até agravar processos de desertificação em determinadas áreas. Por isso, cientistas defendem uma nova fase do projeto baseada em espécies nativas e maior diversidade vegetal. Entre sucessos e desafios, a Grande Muralha Verde segue como uma das mais ambiciosas experiências de engenharia ecológica já realizadas pela humanidade.