Raúl Augusto Almeida Solnado é
consensualmente considerado o pai do humor moderno em Portugal. Num país
dominado pela rigidez da censura e pelo cinzento do Estado Novo, Solnado trouxe
uma lufada de ar fresco, introduzindo o humor do absurdo, a comédia de pé
(stand-up) e uma capacidade ímpar de comunicar com o público de todas as
idades.
Nascimento: 19 de Outubro de
1929, na freguesia de Santos-o-Velho, Bairro da Madragoa, em Lisboa.
Solnado deu os primeiros
passos no teatro amador na Sociedade Filarmónica Incrível Almadense, passando
rapidamente para o teatro de revista e a rádio. Em 1962, a sua carreira mudou
para sempre com o célebre monólogo "A Guerra de 1908" (famoso pela
frase "Liguei para a guerra e disse: 'É da guerra? Daqui fala do
inimigo...'"). Este trabalho não só o consagrou nacionalmente, como se
tornou um marco absoluto da comédia em língua portuguesa, chegando a vender
centenas de milhares de discos.
A sua visão ultrapassava a
representação: Solnado era um impulsionador cultural. Foi fundado do Teatro
Villaret em Lisboa, um espaço que dinamizou a cena dramática da capital, e
desempenhou um papel decisivo na criação e consolidação da Casa do Artista, uma
instituição de apoio aos profissionais do espetáculo na sua velhice.
Na Rádio e Televisão de
Portugal (RTP), Raúl Solnado foi rosto e motor de alguns dos formatos mais
marcantes da história da televisão nacional:
"Zip-Zip" (1969):
Criado por Raúl Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz, este talk-show gravado
no Teatro Villaret revolucionou a televisão portuguesa. Emitido nas noites de
segunda-feira, tornou-se um fenómeno social, dando palco à música de intervenção,
à discussão de ideias e a um humor inteligente no final da década de 1960.
"O Lápis Azul" (1966): Um programa inovador
onde brincava com os limites da própria censura.
"A Visita da
Cornélia" (1977): Concurso de grande audiência apresentado com o seu tom
caloroso, ao lado da famosa vaca de peluche "Cornélia".
"E o Resto é Cantiga" (1981): Programa de
entretenimento e música ligeira.
"Fazer Humor com o Humor
que Temos" (1982): Formato inteiramente dedicado à análise e prática da
comédia.
"Ponto de Encontro"
(década de 1990): Onde revelou a sua vertente mais humana e empática ao
promover o reencontro de familiares e amigos separados pelo tempo.
Raúl Solnado teve três filhos
e vários netos, existindo uma forte continuidade artística na família:
Filhos:
Alexandra Solnado: Nascida do
seu casamento com a atriz brasileira Joselita Alvarenga. Alexandra começou por
seguir a carreira de atriz e cantora na juventude, tornando-se mais tarde uma
reconhecida autora e escritora na área da espiritualidade.
Renato Solnado: Também filho do casamento com Joselita
Alvarenga.
Mikkel Solnado: Filho da sua
relação com a dinamarquesa Hanne Wilhelmisen. Mikkel seguiu de perto o mundo do
espetáculo, afirmando-se como cantor, compositor e produtor musical.
Netos que seguiram as pegadas:
Joana Solnado: Filha de
Alexandra Solnado, é a herdeira mais visível do talento dramático do avô. É uma
das mais conhecidas e prestigiadas atrizes da sua geração em Portugal, com uma
longa carreira na televisão (telenovelas e séries), no cinema e no teatro.
Solnado faleceu a 8 de Agosto de
2009 (aos 79 anos), no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de doença
cardiovascular.